Ver a verdadeira natureza da realidade, afastando a ilusão, é a forma encontrada por Buda para a cessação do sofrimento. Buda ou Siddhartha Gautama foi um príncipe que nasceu em meados do século VI a.C., na região de Lumbini (no actual Nepal) e que viria a tornar-se um professor espiritual e fundar o Budismo. Depois de se ter confrontado com o sofrimento causado pela velhice, a doença e a morte, Siddhartha parte à descoberta de um meio de cessar com o sofrimento e a insatisfação inerente à condição humana. Siddhartha vive uma variedade de experiências: as beatitudes e decepções da cultura, do amor e do poder, a pobreza de um religioso itinerante, as contemplações e transes de um iogui, as mortificações do asceta. Permanecendo a insatisfação, Siddhartha senta-se debaixo de uma árvore, decidido a apenas se levantar depois de encontrar o despertar, concentrando as forças espirituais no problema central: a libertação do sofrimento. A meditação revelou-lhe a unidade fundamental de todos os seres vivos, de como todos eles eram arrastados na eterna roda de nascimento, do sofrimento e da morte (Samsara) e os traços incontornáveis da experiência humana no mundo:

– a Impermanência: tudo está em fluxo. No mundo material, nada é permanente. As coisas podem dar a impressão de o serem, porém isso é ilusão. Com a passagem do tempo, tudo se altera: montanhas, mares, céus, seres humanos;

– a Insatisfação / Sofrimento: a percepção da efemeridade de tudo produz sentimentos de angústia e de ansiedade que suscitam um maior apego em relação àquilo que nós próprios sabemos estar condenados;

Anatman: não existe uma identidade imutável e independente.

Sendo tudo impermanente e sendo uma ilusão vermos algo como permanente, como nos libertarmos do sofrimento que esta percepção produz? É no Sermão de Benares que Buda ensina a via possível para chegar à iluminação, ao Nirvana, a uma felicidade real e estável, escapando ao sofrimento, à constante insatisfação e à eterna roda de renascimentos.

As quatro nobres verdades:

  1. A Natureza do Sofrimento
    “Esta é a nobre verdade do sofrimento: nascer é sofrimento, decair é sofrimento, doença é sofrimento, morte é sofrimento; tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero são sofrimento; a união com aquilo que é desprazeroso é sofrimento; a separação daquilo que é prazeroso é sofrimento; não obter o que queremos é sofrimento; em resumo, os cinco agregados influenciados pelo apego são sofrimento.
  2. Origem do Sofrimento
    “Esta é a nobre verdade da origem do sofrimento: é este desejo que conduz a uma renovada existência, acompanhado pela cobiça e pelo prazer, buscando o prazer aqui e ali; isto é, o desejo pelos prazeres sensuais, o desejo por ser/existir, o desejo por não ser/existir.”
  3. Cessação do Sofrimento
    “Esta é a nobre verdade da cessação do sofrimento: é o desaparecimento e cessação sem deixar vestígios daquele mesmo desejo, o abandono e renúncia a ele, a libertação dele, a independência dele.”
  4. O Caminho para a Cessação do Sofrimento:
    “Esta é a nobre verdade do caminho que conduz à cessação do sofrimento: é este Nobre Caminho Óctuplo:entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta, concentração correcta”.

A iluminação a que podem aspirar todos os seres é, então, ver a natureza da realidade, ver as coisas como elas são: de que tudo muda, de que nada permanece. Ascender ao estado de Nirvana consiste em deixar a respiração, a vida, fluir, sem querer retê-la neste ou naquele momento, por mais significativo que ele nos pareça. Mas, para este estado de espírito acontecer, é preciso seguir a vida do meio, evitando os extremos, e trabalhar no aperfeiçoamento das três dimensões da nossa existência: o conhecimento sapiencial, a acção moral e a concentração do sentir. Conhecer profundamente o mundo, agir tendo em conta a efemeridade da existência, e sentir sem apego o nosso corpo, os outros e o mundo, é o caminho proposto pelo Budismo.